Saberes PluraisPPCIR · UFJF

Ciclo 1 · Saberes Shawãdawa

Narrativas

Histórias tradicionais contadas por quem as guarda, com as pinturas que as acompanham. Diferente dos registros, que são trechos de encontro, a narrativa é para ler inteira.

Pintura indígena: um grande jacaré amarelo atravessado sobre fundo roxo, com fileiras de pessoas caminhando sobre ele.

O Jacaré que Serviu de Ponte

Narrada pelo Prof. Edilson Arara, Terra Indígena Igarapé Humaitá, Acre.

História tradicional sobre o surgimento dos diferentes povos indígenas da Amazônia. Publicada em setembro de 2026.

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No começo do mundo os povos indígenas moravam todos juntos em um só lugar. Certo dia, esses povos resolveram ir embora e combinaram que cada um colocaria seus pertences dentro de um paneiro e iria embora. Então, colocaram os paneiros nas costas e saíram andando pela floresta sem se preocuparem com nada e com muita calma.

Eles viajavam quando chegaram à margem de um rio muito largo e, em decorrência disso, resolveram ficar morando na beira deste rio. Ficaram ali durante muito tempo. Ali eles caçavam, pescavam e plantavam muitos legumes para se alimentarem. Quando foi um dia, eles olharam para o rio e viram que tinha um jacaré boiando no meio do rio, o maior jacaré que eles já viram na vida.

O jacaré olhou para eles e falou:

Se vocês me derem de comer todos os dias, eu atravesso vocês, mas tenho uma recomendação: eu como todo tipo de carne, só não como gente da minha família.

Eles ficaram muito animados e começaram a matar caça para o jacaré em troca da passagem, e todos os dias o jacaré atravessava um número de pessoas. Mas um dos indígenas, avexado para atravessar, matou um jacaré novo e deu para o jacaré grande comer. Ele comeu, mas quando percebeu encheu-se de raiva porque havia comido seu parente. Todo dia o jacaré cantava de alegria porque havia comido carne de caça, mas nesse dia ele não cantou mais. Eles falavam com ele, mas ele nem dava atenção. Já havia atravessado muita gente, mas a maioria ainda estava na mesma margem do rio.

Contrariando a decisão do jacaré, os indígenas formaram um grupo, que montou na costa do jacaré, que foi atravessando o rio. Mas quando já estavam no meio do rio, o jacaré virou e ficou com a barriga para cima, afundando, e nunca mais boiou. É por isso que nós, povos indígenas, nunca mais dividimos. Assim, os índios da Amazônia formam o grupo dos povos da semente e dentes, e os índios que ficaram do lado de lá do rio formam o grupo dos povos da miçanga.

texto a conferir

Pintura indígena: cena de floresta e roçado, com pessoas plantando, caçando e em torno de uma sepultura de onde brota o cipó.

O surgimento do cipó: Tsĩbu Shãdipahu

Narrativa de origem da bebida sagrada, o caapi.

Publicada em maio de 2026. Conversa com a mesma história contada por Tuku Udi no Módulo I.

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Havia um pajé que era muito sabido. Um dia, ele adoeceu. Seus filhos tomaram rapé e cantaram durante muitos dias, mas ele não se curou. Na hora da morte, ele disse para o filho: "Meu filho, no dia que eu morrer você não bota meus pés do lado poente, você bota do lado nascente." Os filhos disseram: "Sim, pai." Dizendo isto, ele morreu.

No enterro, seus filhos se esqueceram e botaram seus pés virados para o poente. Ele disse: "Meus filhos, eu não disse pra vocês que não botassem os pés dele no lado poente? Pois agora eu mesmo vou se colocar!" Ele se levantou, colocou a perna dele para o lado nascente. Os filhos choraram de medo e pediram a ele que não fizesse mais aquilo. Enterraram-no e foram embora, muito tristes.

Depois de três dias, o irmão velho disse: "Bora procurar alguma coisa para comer! Nosso pai se acabou, mas nós temos que comer." Eles foram caçar e mataram caça. Estavam voltando, passando pelo roçado, perto de onde o pai estava sepultado, quando o japó-galinha gritou: "kan, kan, kan". O morto começou a gemer: "uuummm, yamĩ, yamĩ, uuuummm, yamĩ, yamĩ". Os filhos correram com medo e pediram que ele não fizesse aquilo.

Passado muito tempo, um dia eles foram à sepultura do pai. Chegando lá, viram que na cova estava nascendo um matinho. Eles pensaram: "Rapaz, o que é isso?" O outro irmão disse: "Bora deixar aí mesmo, vamos deixar crescer o que o nosso pai deixou para nós." Poucos dias depois, viram um outro pezinho nascendo. O irmão mais velho disse: "Vamos deixar isso aí, vamos ver o que vai dar."

O cipó foi crescendo, até que enramou-se por cima da cova. O outro pé também cresceu e começou a soltar pimenta. O irmão mais velho disse: "Bora fazer um preparo para experimentar?" Os outros perguntaram: "Mas como nós vamos preparar esse cipó?" "Nós não podemos fazer outra coisa, vamos cortar um pedacinho de pau, botar no fogo e vamos ver o que vai dar." Então prepararam só o cipó, mas não deu.

Um dia, o irmão mais velho sonhou como se preparava o cipó. Ele sonhou com um cara lhe mostrando a folha da floresta para misturar. Ele achou a folha, a trouxe e preparou o cipó. Foi de lá pra cá que se toma o cipó.

texto e autoria a conferir

Dois livros didáticos Shawãdawa sobre uma mesa: Nukũ Tsãy Shawãdawa e Shawã Nãba, este com duas araras desenhadas na capa.

Nukũ Tsãy Shawãdawa e Shawã Nãba

Identidade e narrativa na educação escolar indígena Shawãdawa.

Livros produzidos pela própria comunidade. Publicado em setembro de 2026.

Ler a apresentação

As duas obras são marcos na luta do povo Shawãdawa pela preservação de sua língua, cultura e memória por meio da educação escolar indígena. Mais do que livros didáticos, são instrumentos de afirmação identitária e autonomia pedagógica, produzidos na busca por uma escola que dialogue com a realidade local.

Nukũ Tsãy Shawãdawa, lançado em 2007, é um livro de alfabetização elaborado pela Associação do Povo Arara do Igarapé Humaitá, a APAIH, em parceria com a Comissão Pró-Índio do Acre. Foi concebido a partir das comunidades da Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá, como Santo Antônio, Raimundo Vale e Foz do Nilo, com foco na alfabetização na língua nativa.

Shawã Nãba, de 2012, reúne relatos de mitos de origem, causos e ensinamentos práticos transmitidos pelos mais velhos. Aborda a cosmologia Shawãdawa, transmitindo às novas gerações histórias que envolvem os animais da floresta, os espíritos da natureza e a ancestralidade indígena.

Nukũ vake tapi vixa tapitãpiaka inũ nuku vakevu nuku mũduti tapinũ. Nuku vakevu nukushũ shenipavu ivimũ. Nuke vakevu nuku shutaipãwdi keskara inũ dipikãdia xara tapishũ.

Nossos filhos estão aprendendo a escrever e a dançar na tradição. Nossos filhos vão contar a história. Nossos filhos vão aprender o que os velhos ensinaram e ficarão bem formados.

Shãmavede Iuvenepahiraka. grafia a conferir